Nos últimos anos, a alimentação sem glúten tornou-se cada vez mais comum, nem sempre pelos mesmos motivos. Para algumas pessoas, é uma escolha alimentar; para outras, pode surgir por desconforto digestivo ou por recomendação clínica. No entanto, na doença celíaca, a exclusão do glúten não é uma tendência nem uma preferência: é parte essencial do tratamento de uma doença autoimune.
O que é a doença celíaca?
A doença celíaca é uma doença autoimune em que a ingestão de glúten provoca uma resposta do sistema imunitário que pode lesar o intestino delgado. O glúten está presente em cereais como o trigo, o centeio e a cevada. Atualmente, o único tratamento aceite é uma dieta isenta de glúten, rigorosa, equilibrada e mantida ao longo da vida.1
Quando existe lesão intestinal, a absorção de nutrientes pode ficar comprometida. Por isso, a doença celíaca pode dar sintomas digestivos, como diarreia, gases, distensão abdominal ou dor, mas também pode manifestar-se de formas menos óbvias: anemia, cansaço, perda de peso, alterações ósseas, aftas recorrentes ou défices nutricionais.
E é mais comum do que muitas pessoas pensam. Uma meta-análise global estimou uma prevalência mundial de cerca de 1,4% quando baseada em análises sanguíneas e 0,7% quando confirmada por biópsia. A doença aparece em todos os continentes, com valores de doença confirmada por biópsia de cerca de 0,8% na Europa e Oceânia, 0,6% na Ásia, 0,5% em África e América do Norte e 0,4% na América do Sul 2
Em Portugal, os dados ainda são limitados, mas um estudo realizado em Braga, em 2006, avaliou 536 adolescentes e encontrou uma prevalência de 1 caso por cada 134 adolescentes, sugerindo que a doença celíaca pode estar subdiagnosticada no nosso país 3.
3 mitos sobre a doença celíaca
Mito 1 – “Se não tenho sintomas, posso comer um bocadinho”
Como em todas as patologias, se a predisposição ou verdadeira intolerância existe, não devem existir exceções. Na doença celíaca, a ausência de sintomas não significa ausência de lesão. Há pessoas que ingerem glúten e sentem rapidamente náuseas, dor abdominal, diarreia ou mal-estar. Outras não sentem praticamente nada, mas podem continuar a ter inflamação intestinal.
Na prática, isto significa que a dieta não é “mais ou menos sem glúten”. Tem de ser mesmo sem glúten.
Mito 2 – “Sem glúten é sempre mais saudável”
Também não.
Para quem tem doença celíaca, a dieta sem glúten é tratamento. Para quem não tem doença celíaca, alergia ao trigo ou outra indicação clínica, retirar o glúten não torna automaticamente a alimentação mais saudável.
A própria Associação Portuguesa de Celíacos reforça que a menção “sem glúten” informa apenas isso: que o produto é sem glúten. Não significa que seja mais equilibrado, menos calórico ou melhor para a saúde.
Uma bolacha sem glúten continua a ser uma bolacha. Um bolo sem glúten continua a ser um bolo. E muitos produtos “gluten free” podem ser ricos em açúcar, gordura, sal ou amidos refinados.
O objetivo não é trocar uma alimentação desequilibrada com glúten por uma alimentação desequilibrada sem glúten.
Mito 3 – “Basta cortar pão e massa”
Era bom que fosse assim tão simples.
A dieta isenta de glúten exige atenção aos ingredientes escondidos e, sobretudo, à contaminação cruzada. A APC define contaminação cruzada como a situação em que um alimento seguro entra em contacto com pequenas quantidades de um alimento com glúten, direta ou indiretamente, através de mãos, utensílios, superfícies ou equipamentos. Mesmo pequenas quantidades podem ser prejudiciais para pessoas com doença celíaca.
Exemplos do dia a dia:
- usar a mesma torradeira para pão normal e pão sem glúten
- passar a faca no pão com glúten e depois na manteiga
- fritar batatas no mesmo óleo onde foram fritos panados
- comprar farinhas, frutos secos ou leguminosas a granel sem garantia de segurança
- comer fora sem confirmar como o prato é preparado
Num estudo português com 339 adultos com doença celíaca, as principais dificuldades relatadas foram precisamente o risco de contaminação cruzada, referido por 84,1%, e a disponibilidade de produtos sem glúten em cafés, hospitais e restaurantes, referida por 83,8% 4.
Ou seja, a maior dificuldade muitas vezes não é saber que pão comum tem glúten, mas sim viver num mundo onde o glúten aparece em todo o lado, mesmo quando não está à vista.
Consulta de Nutrição para doentes celíacos
A consulta de nutrição é importante porque a dieta sem glúten não deve ser feita à base de medo, improviso ou restrições desnecessárias. Aconselhamos vivamente consultar a Dra Rita Fernandes, que colabora connosco desde a abertura da clínica.
A consulta com a nutricionista pode ajudar a:
- identificar fontes escondidas de glúten
- organizar refeições seguras em casa, no trabalho, na escola e em restaurantes
- ensinar a ler rótulos
- reduzir o risco de contaminação cruzada
- corrigir défices nutricionais
- garantir uma alimentação variada, prática e equilibrada
- avaliar outros fatores quando os sintomas continuam apesar da dieta sem glúten
Este último ponto é muito importante. Nem todos os sintomas persistentes são culpa do glúten. Em algumas pessoas, depois de controlada a doença celíaca, podem existir sintomas associados a intolerância à lactose, síndrome do intestino irritável, excesso de alimentos fermentáveis ou outros fatores digestivos.
Nem é moda, nem é o fim do mundo
A doença celíaca não é uma moda. Também não é uma sentença para comer mal, viver assustado ou nunca mais ter prazer à mesa.
É uma doença crónica que exige uma dieta rigorosa, sim, mas também informação, organização e acompanhamento adequado. Com as escolhas certas, é possível comer bem, reduzir sintomas, proteger o intestino e manter uma vida social e alimentar o mais normal possível.
Na Clínica Sintra Saúde, a Consulta de Nutrição Clínica pode ajudar a transformar uma restrição obrigatória num plano alimentar mais simples, seguro e adaptado à rotina de cada pessoa.
A mudança começa no prato, mas não precisa de começar sozinha.
Outros artigos relacionados:
Referências bibliográficas
- Associação Portuguesa de Celíacos. O que é a doença celíaca? APC – Associação Portuguesa de Celíacos. Disponível em: https://www.celiacos.org.pt/o-que-e/
- Associação Portuguesa de Celíacos. Tratamento. APC – Associação Portuguesa de Celíacos. Disponível em: https://www.celiacos.org.pt/tratamento/
- Singh P, Arora A, Strand TA, Leffler DA, Catassi C, Green PH, Kelly CP, Ahuja V, Makharia GK. Global Prevalence of Celiac Disease: Systematic Review and Meta-analysis. Clinical Gastroenterology and Hepatology. 2018;16(6):823–836.e2. doi:10.1016/j.cgh.2017.06.037.
- Antunes H, Abreu I, Nogueiras A, Sá C, Gonçalves C, Cleto P, Garcia F, Alves A, Lemos D. Primeira determinação de prevalência de doença celíaca numa população portuguesa. Acta Médica Portuguesa. 2006;19(2):115–120.
- Associação Portuguesa de Celíacos. Mitos e Verdades. APC – Associação Portuguesa de Celíacos. Disponível em: https://www.celiacos.org.pt/mitos-e-verdades/
- Associação Portuguesa de Celíacos. Contaminação Cruzada. APC – Associação Portuguesa de Celíacos. Disponível em: https://www.celiacos.org.pt/contaminacao-cruzada/
- Lima P, Silva S, Pereira B, Tavares G, Poínhos R, Silva D. Gluten-free diet among Portuguese coeliac adults: perceived difficulties / A dieta isenta de glúten em celíacos adultos portugueses: dificuldades percecionadas. Acta Portuguesa de Nutrição. 2020;(21):24–29. doi:10.21011/apn.2020.2104.










